Entrevista de Sofia Trindade a Pedro Sena Nunes - 13 Dezembro 2009
• Considera que a introdução da ficção no documentário o torna mais comercial e o dirige numa vertente de entretenimento?
Essa provavelmente será a tendência natural, mas não me identifico com essa dinâmica. Parece-me que se avizinha uma fronteira cada vez mais ténue entre documentário e ficção, caminhos para um género misto, que associa os dois territórios, o chamado docu-drama.
Esta é uma nova fase, parece que nos induz a pensar que o cinema se esgotou em si mesmo na exploração ficcional e viu-se obrigado a voltar-se para o quotidiano, o cinema procurou a revitalização da ficção nos outros géneros, procurando novas fórmulas de comunicar com o público.
Essa regeneração passou pela incrementação do tecido criativo no documentário, agora um novo passo está a ser dado, o gosto por uma certa combinação dos géneros com o objectivo também de fortalecer a própria ficção.
Michael Moore é um empreendedor que visa filmar realidades angustiantes com uma dose de humor corrosivo que lhe cria tanto admiradores incondicionais quanto inimigos declarados.
• Qual considera ser a maior problemática dos documentários de Michael Moore?
Provavelmente a manipulação. Nem sempre negativa, às vezes serve para ajudar a construir a mensagem que ele procurar para o seu cinema e que representa o seu mundo social e político.
Do ponto de vista ético a realidade sairá deturpada, mas apresenta uma mensagem a publicar bem mais clara. Os poucos casos que me interessam na manipulação são a manipulação que funciona como um verdadeiro “show off”, como um espectáculo extra que ajuda a construir o filme. A dimensão da manipulação não deve extrapolar os próprios factos.
Não sou contra as reconstituições, encenações que nos levem a passar a ideia que queremos e que não temos acesso a esse material devido às mais diversas razões.
• Qual o valor documental que atribui ao trabalho de Michael Moore?
O valor exactamente que ele procura: o valor da Comunicação de ponto de vista muito parcial. Muitas situações têm um peso propagandístico muito elevado. Por vezes, esse valor soa comprometido, comprometido com a mensagem. É um mundo muito próprio, que pode fascinar e ferir em simultâneo. Parece-me que o documentário quando se revela panfleto partidário pode-se tornar perigoso. Mas, não deixa de ter um valor radicalmente revelador!
Michael Moore é um cineasta conhecido pelos seus trabalhos críticos em relação à política americana e auto-proclama-se porta-voz dos eleitores e já chegou a ser detido pela polícia por entrara em espaços públicos sem autorização.
Procura que o grande público conheça as tramas das grandes empresas e dos políticos insensíveis e indiferentes, obrigando, entre muitas outras coisas, a multinacional Nike a deixar de utilizar crianças como força de trabalho barata na Indonésia. É também este o valor do seu trabalho.
A obra de Michael Moore é polémica e simultaneamente essencial. O seu valor não deve ser apenas analisado pelo lado polémico, são vários os filmes produzidos e nalguns existe uma pertinência absoluta para se aprofundar determinados temas sociais e políticos.
• Acredita que a produção deste tipo de documentário se destina às massas? Se sim, quais as limitações a nível documental que isso implica?
Sem dúvida que se dirige às massas. É um posicionamento político que o dita, que vive uma ilusão e uma ilusão tendenciosa. Destina-se a todas as pessoas que se perdem nas fronteiras políticas que habitam. Pessoas indecisas que se tornam incrédulas perante tais cenários sensacionalistas.
Existe um «lado da barricada» onde Michael Moore nos quer e coloca. Este lado, pode implicar, se não houver uma boa gestão de conteúdos face à mensagem, um beco sem saída. Michael Moore respeitará as regras base do documentário, foge a algumas outras, mas não me parece fazer grande diferença. As suas pesquisas são profundas e denunciadoras, aterrorizam muita gente.
O que interessa é que Michael Moore é feliz a escavar assuntos de uma super potência, para a população da mesma e para o mundo exterior. E ele tem consciência total da sua repercussão a nível mundial.
Parece-me este posicionamento faz falta ao nosso documentário nacional. Faz falta comunicar, mas mais falta faz num país com tanta corrupção que não se faça de facto a exposição clara do tanto que não conhecemos.
• Considera que em alguns casos Michael Moore cria personagens? E que essa construção de personagens possa ser feita através da sua escolha de timing de elaboração de storyboard e de edição?
Michael Moore é uma personagem.
A criação de personagens faz parte da ideia de documentário. Quando elas são completamente ficcionadas podemos dizer que estamos num documentário ficcional, mas desde que o propósito seja levar o projecto a um porto de agitações que nos deixe a pensar. Documentário é também a interpretação criativa da realidade, pertence ao documentário a criação, a criação de uma «ficção presa ao real».
A ficção pode apoderar-se da realidade e vice-versa, essas são propostas que sempre me interessaram, o espectador apenas nãos e pode sentir defraudado com o filme, mas mais com o mundo. Também construo personagens nos meus documentários, sem esquecer storyboard e timing de edição, afinal estamos apenas a falar de cinema com uma linguagem própria, mas comum aos géneros.
• Podias falar um pouco sobre os intervalos e a publicidade (na televisão) ditarem, ou tentarem ditar, a duração dos documentários? E dar alguns exemplos concretos?
É uma realidade que está presente, tanto produtores como realizadores convivem diariamente com esse assunto, sem pressas, têm-se vindo a afinar este discurso e cada vez mais o documentário sabe que tem de se conformar com tamanha desilusão.
Conheço alguns casos em que a sugestão da redução de tempo dos filmes para os encaixar nalgumas grelhas de programação é ditada pela própria direcção do canal televisivo, de forma a se poder encaixar os filmes nos timings standards.
Alguns vêem os trabalhos chumbados dentro das televisões. Lembro-me de raras excepções, em que existiu a criação de um ciclo de cinema documental e o pacote de filmes foi respeitado em termos da duração dos filmes. Caso contrário o documentário vive na ditadura das grelhas televisivas.
Também já senti essa pressão. Foi um caso que não foi até ao fim porque não o permiti. Era um caso em que o canal televisivo queria exibir muito um trabalho nosso sem qualquer pagamento e o objectivo fácil era ficar com o material original, sobre um assunto delicado, no seu arquivo e a partir daí usá-lo como bem entender, não aceitei o jogo injusto que estava ali a nascer, não cedi a essa tentação. Mas lembro-me de ouvir programadores preocupados com um filme contemporâneo que é a preto e branco…
LADRÕES DE DEUS
Sinopse.
Onde está o Divino? Onde está o homem? Em quem votas? De quem te esqueces?
Através de um processo de quase escrita/realização/desenho/pintura/música automático surreal, as palavras, isoladas ou não, articulam-se com as manchas, com as formas que evoluem, propondo-se, elas próprias, neste processo, contaminarem-se de não senso no seu auto isolamento ou auto complacência, ou contaminarem, quer os ecos que entretanto ganharam, quer os silêncios, que também potenciaram.
Ficha Artística.
Realização. PEDRO SENA NUNES
Texto. GONÇALO M. TAVARES
Pintura. JOÃO RIBEIRO
Música. JOÃO GIL
Saxofone e Programação. ARTUR COSTA
Edição Vídeo. PETAR TOSKOVIC
Apoio ao Design da Instalação. WILSON MESTRE
Apoio á Produção. GALERIA AO QUADRADO
Produção Executiva. FÁTIMA LUZ
Estreia da Instalação. FESTIVAL IMAGINARIUS
Produção Geral. VO’ARTE
Fotos da estreia no Festival Imaginarius.
Documentário Corpo Todo
CORPO TODO retrata o processo criativo que alguns elementos/utentes, com necessidades especiais, da Associação do Porto de Paralisia Cerebral (APPC) desenvolveram com a coreógrafa Ana Rita Barata durante 3 meses de trabalho, cruzando 3 linguagens – dança, teatro musical e vídeo - na construção de um espectáculo que estreou na Casa da Música, integrado no encontro Ao Alcance de Todos – Música, Tecnologia e Necessidades Especiais.
O espectáculo CORPO TODO foi criado com base na história de Ícaro, da mitologia grega, e as filmagens visam contextualizar algumas etapas do processo de trabalho e destacar a qualidade do Serviço Educativo da Casa da Música e dos seus colaboradores. CORPO TODO foi produzido no âmbito de uma parceria entre o Serviço Educativo da Casa da Música e a APPC com a participação da Vo´Arte.
Ficha Técnica
Realização - PEDRO SENA NUNES
Produção - ASSOCIAÇÃO VO’ARTE PARA O SERVIÇO EDUCATIVO DA CASA DA MÚSICA E ASSOCIAÇÃO DO PORTO DE PARALISIA CEREBRAL
Câmara - PEDRO SENA NUNES
Som directo - PEDRO SENA NUNES
Produção executiva - SARA VIZINHO
Edição FABIO M. MARTINS, PETAR TOSKOVIC, SARA VIZINHO
Motion design - PETAR TOSKOVIC
Pós-Produção audio - FÁBIO M. MARTINS
Coordenação do projecto - ANABELA LEITE
Direcção Artística e Coreografia - ANA RITA BARATA
Direcção Artística e Teatro Musical - TIM YEALLAND
Direcção Artística e Vídeo - PEDRO SENA NUNES
Director Serviço Educativo Casa Música - PAULO MARIA RODRIGUES
Músicos - BRÍGIDA SILVA, FILIPE RICARDO SILVA, JORGE QUEIJO, LILIANA COELHO, PAULO NETO
Intérpretes - PEDRO RAMOS, LILIANA GALHARDO, BIBIANA FIGUEIREDO
Equipa da APPC - AMÁLIA DE SÁ, EMÍLIA FARIA, PEDRO FERNANDES
Intérpretes (APPC - Associação do Porto de Paralisia Cerebral) - ALEXANDRA DEGENHARDT, ANDRÉ SILVA, ANA RAFAELA LEITÃO, ANTÓNIO CARVALHO, FÁBIO GUEDES, FERNANDO ESTEVES, FILOMENA MACHADO, LAURA BOTELHO, MARIA DO CÉU FERREIRA, MARIANA BARROSO, NÍDIA SANTOS, PAULO BASTOS, PAULO ROBERTO FONSECA, RUI ROÇAS, RUI REIZINHO, SARA FERREIRA, SOFIA MACHADO
Agradecimentos - EQUIPA DE CASA DA MÚSICA, BALLETEATRO, EQUIPA ASSOCIAÇÃO VO’ARTE
Rodagem do próximo documentário " Há Tourada na Aldeia"
Um acto de bravura e emancipação, trinta homens enfrentam o touro com um forcão – gigantesca forquilha triangular de madeira de carvalho, erguida para receber as violentas marradas do touro bravo e fazer desta tourada, um espectáculo único no mundo – Capeia Arraiana. São nove as aldeias fronteiriças da Raia do Sabugal que todos os anos rejuvenescem com as capeias. Os touros são trazidos “livremente” de Espanha para serem corridos no redondel, perante o olhar atento e vibrante da multidão sentada nas bancadas improvisadas. É a capeia reúne de novo a aldeia.Fotos da Rodagem do Documentário neste link por Tiago Ferreira
Elogio ao ½
O bairro 25 de Abril da Meia-Praia fica entre o mar e a linha do comboio.
Começou por ser um conjunto de palhotas construídas, improvisadamente, no “meio da praia”, pelos “índios” que fugiram de Monte Gordo para Lagos, com objectivo de começarem outra vida. Após o 25 Abril, e através do plano arquitectónico Serviço de Apoio Ambulatório Local (S.A.A.L.), as palhotas transformaram-se em casas - construídas pelos próprios índios.
Passados trinta anos, continuam-se a fazer muitas promessas.
Que futuro se espera para o bairro 25 de Abril da Meia-Praia?
#ficha técnica#
realização - pedro sena nunes
directora de produção - ana rita barata
música - gonçalo tocha
director de som - ricardo sequeira
director de fotografia - pedro macedo
fotógrafo - a. roque
edição - pedro sena nunes, miguel quental
consultor edição -rui ribeiro
consultor técnico - sérgio aragão
músicos - gonçalo tocha, jorge trigo, joaquim brito
gravação e mistura de música - gonçalo tocha, tiago marques, andré neto
mistura de som - ricardo sequeira, nuno rosário
motion design - pedro rodrigues
design de comunicação - sofia rodrigues
assistente de produção - joana morgado
tradução - ana calha, adelaide almeida
produção - voarte
#prémios#
Prémio melhor Documentário
Festival Retina, Portugal
Seleção competição Internacional
Doclisboa 2006
Opiniões Elogio ao 1/2
Acompanhei, os contactos iniciais, ouvi as conversas, vi como da desconfiança se passou progressivamente à confiança, da confiança à adopção.
Esta é uma grande qualidade do Pedro, a sua capacidade para chegar à fala com as pessoas e progressivamente pô-las a falar de si, dos seus, dos problemas pequenos e grandes.
Em breve esta comunidade vai deixar de existir, talvez para seu bem.
Acompanhei, os contactos iniciais, ouvi as conversas, vi como da desconfiança se passou progressivamente à confiança, da confiança à adopção.
Esta é uma grande qualidade do Pedro, a sua capacidade para chegar à fala com as pessoas e progressivamente pô-las a falar de si, dos seus, dos problemas pequenos e grandes.
Não foi fácil, esta comunidade vive segregada entre o Caminho de Ferro e o mar que é a sua seara. Para os outros são ainda os Índios da Meia Praia.
Vencidos os receios, as histórias das famílias foram-se desenrolando, por vezes na maior intimidade como quem conta o passado aos filhos. Das muitas histórias, o Pedro soube no meu entender ressaltar o mais importante, sem violência, com a sensibilidade de quem está ali para respeitar.
Da sua triste história até ao sucesso, maior ou menor, foram eles os actores a dizer o que era justo recordar, foram eles a chorar os seus dramas ou a rir-se das tristezas. E é isso que vemos no filme.
Feito com meios tão reduzidos, e com limitação de tempo, é um trabalho maior, que prende o espectador, que questiona, que sensibiliza.
Em breve esta comunidade vai deixar de existir, talvez para seu bem.
O seu passado mais uma vez foi registado, com as suas falas, com os seus dizeres, com os seus sentimentos. Gostei de participar.
Obrigado Pedro
# elvira santiago # arrumadora de palavras Serão os índios felizes? Outros - do Algarve também, do Algarve que poucos conhecem - dizem-me que uma casa é muito. Que, depois de terem casa, há índios que passam a conseguir entrar em filmes, tal e qual como os outros que andam por aí.
# gonçalo m. tavares # escritor “Observar o observador observando” 1. Todo o interior das formas é escuro. Escuro é outro nome para o invisível. 2. Mesmo o interior tem um negro ainda mais negro («Nigrum nigrnigririus nigro», diziam os alquimistas”) 3. No avesso do visível: o que nos vê.
# Lourenço melo # realizador Mais uma vez um olhar fascinante sobre o nosso povo, com o bom gosto a sinceridade, o humor e a humanidade que o Pedro já nos habituou, é imperativo que termines o teu projecto MICROCOSMOS.
Fracções de índios em directo
Santo só foi Deus. Somos todos pecadores, rebeldes, egoístas. Há um vazio na nossa alma, temos a consciência à deriva, mas somos amados por Deus. Foi Deus que nos escolheu e Deus tem o seu tempo. Muitas vezes queremos tudo à pressa, mas temos que saber esperar. Deus vai-nos encaminhar. Temos de andar em paz, amar o próximo. Temos que amar os inimigos.
#Joaquim Mestre#
Até ao 25 de Abril a vida foi difícil. As dificuldades maiores foram sempre de Inverno. Vendavais, chuva e até mesmo o mar... Mas o mar é a minha vida, tenho apanhado bons cagaços no mar... Num vendaval, o barco meteu-se todo debaixo do mar, agarrei-me ao meu pai, metade dos pescadores morreram…
#Jorge Rosa#
No início eram 41 casas, depois foram precisas mais. Quando veio essa oportunidade foi uns atrás dos outros. Por ser tudo família é porque há mais união, somos todos primos uns dos outros, as pessoas que vieram para cá vieram todas do mesmo sítio. Não é como antigamente mas há união.
#Bartolomeu Dias#
Ser pescador hoje em dia não é fácil, é uma profissão em vias de extinção. Para se tirar o curso são precisos 6 meses. 6 meses para se ser pescador... Não há moços novos no mar, vão todos para as obras, para indústria hoteleira. Antes era mais fácil, tinha-se as cédulas mais cedo, os novos fogem da lei do governo... Ter um barco é uma grande responsabilidade. Chega a um certo ponto que vai enjoando, por causa das leis, cada vez vai sendo pior... no fim de tudo quem fica a perder é o pescador. Vendem-se cavalas a 2 e a 3 euros e na lota vendem-nas a 12 euros. Somos nós que temos que pagar tudo!
#Família Ferreira#
O bairro cada vez está pior, as ruas só têm lixo, o bairro não está nada desenvolvido. Há mais de vinte e tal anos que está assim. O presidente da Câmara de Lagos não ajuda, diz para se fazerem ruas mas ninguém as faz. Há 26 anos que está assim, só vêm ao Bairro quando há eleições. Chamam-nos índios da Meia-Praia porque morávamos em barracas feitas de barrão, mas não ficamos ofendidos... O Zeca Afonso é que cantou os índios da Meia-Praia... A malta mais velha são pescadores, os mais novos são pedreiros. Primeiro trabalhavam na arte de arrastar, só depois é que apareceram os barcos. A malta nova é a malta dos 7 ofícios, trabalham nas obras, na pesca, nas artes...
#Maria Rita#
Pedíamos de porta em porta, a minha mãe trabalhava na fábrica, era uma miséria. Viemos a pé de Monte Gordo, demorámos 3 dias a chegar aqui e fomos morar para perto do forte, havia umas barracas em rede. A minha vida era andar nas artes de arrastar, ia vender umas canastras de peixe por todo o lado... Não havia dinheiro. As últimas barracas eram em platex...aí era outra coisa! Depois veio o 25 de Abril e veio uma série de gente ajudar a construir as casas. Ofereceram-nos um fundo e com o nosso trabalho contribuímos para as nossas casinhas. Durante 25 anos.
Reflexão sobre a Meia-Praia
Vivemos num tempo que exige uma reflexão profunda e uma mudança de atitude de todos.
Elogio ao ½ foi um desafio simultaneamente aliciante e ambicioso que me obrigou a voltar a olhar para filmar.
O que há de novo então num documentário? As possibilidades são infinitas. Esta foi certamente mais uma nova experiência. De casa em casa registei as impressões dos habitantes da Meia-Praia. Um olhar sempre pessoal, implica um ponto de vista, uma vivência, uma interpretação ou uma reinterpretação da realidade. Os olhos dos outros prendem os nossos. O meu olhar não ficou indiferente depois de habitar o território das ideias dos habitantes da Meia-Praia.
O poder de isolar uma imagem, ou um som, do seu contexto, faz-me exercer um trabalho de selecção e composição, associado ao trabalho que construo.
Desenvolvi para este projecto uma estrutura narrativa pouco vincada na lógica de uma “história tradicional”, mas antes agarrada aos corpos que a representam e que simultaneamente a criam.
Muitas vezes não sei como quero que seja o resultado final de um documentário, mas quase sempre sei como não quero que seja. Parece-me que o processo de criação e produção deste projecto foi bastante livre e muito concentrado no fascínio das histórias dos “índios”.
Observei e vivi a Meia-Praia quando filmei o vídeo clip da música “Índios da Meia Praia” do Zeca Afonso, num arranjo criado pelo trio de jazz Zé Eduardo Unit, e fiquei sensibilizado com a dimensão humana, social e política do Bairro 25 de Abril colado ao mar.
Pretendi que o projecto Elogio ao ½ apresentasse uma combinação de três níveis diferenciados: imagem, som e palavras de testemunhos vivos do que foi e o que quer ser a Meia-Praia.
Da pele à Pedra

As montanhas verdes, tentavam fugir dos fogos que ardiam a terra. No ar abafado, uma brisa conduzia-nos para um trabalho novo: explorar a Lavaria das Minas da Panasqueira abandonadas há 15 anos e integrar a realidade da população de mineiros. Uma aldeia deserta esperava-nos, os olhos atentos de um ou dois habitantes, seguiam os nossos passos.
Descemos no escuro a 450 metros para conhecer mineiros. Ouvimos histórias e dançámos com elas. Um novo trabalho nascia para além da pele.
realização - pedro sena nunes
câmara - pedro sena nunes
edição - jorge martins
coreografia - ana rita barata
fotografia - a.roque
argumento - rui paiva
música - gonçalo tocha, dídio pestana
bailarina - joana chandelier
produção - voarte
design de comunicação - sofia rodrigues
participação - magda novais - tiago castro
Imagem: Cor
Som: Stereo
Duração: 37’
Ano: 2005
PT .ING
A morte do cinema

Projecto apoiado financeiramente pelo Instituto Cinema, Audiovisual e Multimédia ICAM - Ministério da Cultura.
#sinopse#
Álvaro Dias, mecânico de automóveis, (re)construiu dois projectores de cinema e inventou-lhes o sistema de leitura fotosonora. Através das suas "máquinas de precisão” descobriu, fascinado, o que é a técnica e a ilusão do cinema. Durante a ditadura, o seu cine-garagem recebeu, clandestinamente, amigos e curiosos.
Preencheu o ecrã, feito de um lençol branco, com filmes “apimentados” e “para senhoras”.
Que imagens se projectam hoje no seu ecrã?
#ficha técnica#
ideia original - pedro sena nunes
realizador - pedro sena nunes
som - emídio buchinho
imagem - pedro sena nunes
montagem - micael espinha
produtor - pedro sena nunes
edição imagem - subfilmes
genérico - joão pelica, sérgio aragão
edição e mistura som - cantinhomusica.com, nuno rosário
on line - pelicafilms
laboratório - tobis portuguesa
film recording - sérgio aragão
etalounage - dora madeira
mistura dolby sr - videocine, tiago matos
fotosonoro - madrid film
design de comunicação - sofia rodrigues
contabilidade - fernando semeão
tradução - paola guardini. peter taylor
web designer - nelson deicado
produção - associação meridional cultura
colaboração - associação voarte, tiago afonso sena
participação especial - emiídio buchinho, álvaro dias
Cópia Final: 35mm
Formato Registo: super8 e DV
Som Óptico: Dolby SR
Imagem: Cor
Duração: 40’
Direitos Reservados: Associação
Meridional de Cultura
Ano: 2003
PT . ING
#press#

Entraste no jogo tens que jogar, assim na terra como no céu

#sinopse#
Na província portuguesa do Minho, Jesus Cristo e Baco são convidados especiais da romaria que se realiza, todos os anos, no vale da Serra d’Arga de 28 para 29 de Agosto.
A voz de Deus e os cânticos da multidão enchem a serra.
O sagrado e o profano de mãos dadas. Milhares de romeiros deslocam-se para cumprir as suas promessas, para adorar o santo, para assistir à missa e ainda beber um copo de aguardente e mel.
#ficha técnica#
ideia original - pedro sena nunes
pesquisa - tiago afonso de sena
realização - pedro sena nunes
música - vários
imagem - rui poças
som - emídio buchinho
mistura de som - miguel lima
montagem - joão pelica - pedro sena nunes
colaboradora - isabel arezes
pós-produção de imagem - sub.filmes
produção - pedro sena nunes
design de comunicação - sofia rodrigues
Formato Final: Betacam SP
Formato Registo: Betacam SP
Imagem: Cor
Som: Digital DAT
Duração: 40’
Ano: 2000
Produtora: T. Meridional
PT. ING
#prémios#
Prémio Público
X Encontros Cinema Documental da Malaposta
1º Prémio Nacional
2º Festival Internacional VideoLisboa 2000
Menção Honrosa ~
#press#



Margens

Filmado no âmbito do 1º curso Europeu de Realização em Documentário “Visions 94/95”
Existe uma situação complexa de isolamento geo-humano na província portuguesa de Trás-os-Montes. Uma ponte ferroviária comprada, em segunda mão, aos Caminhos de Ferro Portugueses - CP, por apenas 22 aldeões, com a ajuda do Programa Europeu LEADER e da Câmara Municipal de Mirandela, salvará a velha aldeia de Chelas de uma vida isolada entre dois rios? Um sonho adiado. Formas de viver tão idênticas e diferentes, de pessoas que sonham como morrem. Sozinhas.
ideia original - pedro sena nunes
realização - pedro sena nunes
música - emídio buchinho
director de som - emídio buchinho
director de fotografia - paulo ares
montagem - paulo Belém, antónio figueiredo
produtores - susana madeira, pedro sena nunes
design gráfico - sofia rodrigues
Imagem: Cor
Som: Óptico
Duração: 28’
Ano: 1995
PT. ING
Prémio melhor Obra Documental
Prémio melhor Documentário
VI Encontros Internacionais de Cinema Documental da Malaposta, 1995
Prémio melhor Documentário Internacional
25º International Festival of Postdam, 1996
Prémio melhor Filme Documental Júri Internacional
24º Festival Internacional de Curtas Metragens do Algarve, 1996
Prémio melhor Jovem Realizador
Prémio melhor Filme Nacional
4º Festival Internacional de Curtas Metragens de Vila do Conde, 1996
Mensão Especial
39º International Documentary Film Festival of Leipzig, 1996
Prémio melhor Filme Português
VIII Bienal de Jovens Criadores da Europa e do Mediterrâneo,1997
Mensão Especial
1º Festiaval Internacional Doc Santiago Compostela, 1999
1º Prémio Nacional
Encontros Nacionais de Arte ANF, 2000

Instalação - Margens do coração e alguma razão

#sinopse#
realização – pedro sena nunes
intervenientes - marta mar, rita sena
música - vasco martins, gyia kancheli
Realizador, Produtor, Fotógrafo e Três vezes Pai
Regularmente colabora com coreógrafos, encenadores, artistas plásticos, actores, designers, músicos e arquitectos. Tem sido convidado para participar em conferências nacionais e internacionais. Foi júri em concursos e festivais de fotografia, teatro, design, dança e cinema. É consultor artístico da Associação Vo’arte. É também consultor de algumas outras associações e projectos artísticos pontuais. Nos últimos doze anos tem-se dedicado muito à área da pedagogia, criando e dirigindo laboratórios dedicados à criação e à experimentação, tanto documental, como ficcional. Foi professor convidado na Escola Superior de Teatro e Cinema, Fórum Dança, Instituto Piaget, Escola Ana Wilson, Glasgow Film and Vídeo Workshop, Centro Em Movimento e ETIC – Escola Técnica de Imagem e Comunicação. Destaque para a sua colaboração, como consultor, com o Ministério da Educação na reforma do ensino artístico. Relativamente à ETIC, é formador há oito anos, coordenador de projectos e formações há 3 anos e há dois anos assumiu a responsabilidade pela Área de Imagem e Som. No seu extenso currículo, Pedro Sena Nunes conta com inúmeros prémios e distinções nas áreas de fotografia, vídeo e cinema.
Projecto Microcosmos
MICROCOSMOS - a pele de um paísContinúo a mapear, no escuro.
O projecto cresce, torna-se visível, e cresce com ele a vontade de continuar a encontrar microcosmos representativos de algumas essências de cada província portuguesa. MICROcosmos é uma série de documentários. Um documentário por província. Entre acasos diversos e momentos imperfeitos, filmei em Trás-os-Montes, Minho, Beira Litoral, Beira Baixa e Algarve. Beira Alta será o próximo território que acrescentarei neste mapa.
A memória de um país pode ser retratada de forma imperturbável e a reflexão sobre as feridas profundas de uma sociedade trazidas para primeiro plano. Espero que a sugestão que vou fazendo através do projecto MICROcosmos se torne formas directas de afrontar as questões que se colocam à minha volta.
O país que não faz o seu retrato de família que futuro terá? Esta é a célebre questão colocada pelo realizador Patrício Guzman. O acervo é fundamental, o mapa é desejado. Estarei disponível para o encontro e para o desencontro. Quero filmar nos labirintos da memória. Procurar nos mais visionários a força de um sonho há muito MICROdesperto.
Reflexão sobre o Documentário Português
Não devemos perder de vista a renovação inigualável que o documentário de criação português sofreu. Neste sentido, este é um período primordial da nossa cinematografia. Em Portugal nunca existiu uma tradição vincada do género documental, mas podemos hoje observar a existência de uma plataforma de orientação que tem ajudado a criar um lugar para o documentário na História do Cinema Português. O nascimento do documentário nacional tem lugar marcado na história, através do primeiro plano documental, nos anos 20, da saída dos operários da fábrica Nacional no Porto, tirando da palavra documentário a sua riqueza e o seu sentido total: um plano, uma intenção, um ritmo, uma decisão, a essência do cinema. Com o decorrer dos anos, o documentário português foi perdendo interesse, tornando-se muitas vezes num veículo de propaganda. Foi a geração de 60 que dignificou o documentário em Portugal, utilizando novos métodos de produção e realização, bem como técnicas inovadoras, influenciadas, sobretudo, pela aprendizagem nas escolas de cinema estrangeiras e pelo contacto directo com outros olhares e formas de registar e interpretar a realidade. Vários filmes surgem conduzidos pelos realizadores Fernando Lopes, António Macedo, Alfredo Tropa, Faria de Almeida, Rui Simões, António Campos, António Damião, F. Costa, António Pedro Vasconcelos, Carlos Vilardebó, António Reis, Seixas Santos, etc. Com o 25 de Abril de 1974, sem censura e com o apoio do Instituto Português do Cinema (IPC) e da Rádio Televisão Portuguesa (RTP), o documentário português conheceu uma nova fase, sobretudo, com o chamado "cinema de intervenção", que permitiu o aparecimento de novas pessoas a fazerem este género de cinema: entrevistas em directo, ilustradas por aspectos humanos envolvidos no problema social ou político em análise. Um dia fui convidado a criar o programa pedagógico para a Cadeira de Cinema Documental da Escola Superior de Teatro e Cinema, e encontrei no livro Cinema Documental de Manuel Faria de Almeida, datado de 1982, uma passagem que se prende com o início da minha reflexão: Se as «arrancadas» são cíclicas, qualquer dia surgirá nova revitalização do género documental. Penso que "essa nova" fase se começou a desenhar no início de 1996, através da vontade invisível de se falar, discutir, entender e defender o documentário. Muito embrionariamente, nascia a terceira fase do documentário português. Para tal contribuiu a concentração de energias de criadores e técnicos, com origens tão diferentes como cinema, antropologia, etnologia, educação, sociologia, vídeo, etc; energias essas que se foram cruzando, na minha opinião, ao longo destes dez últimos anos em debates e confrontações, enriquecendo e renovando com vigor inconfundível o género documental. Parte deste fenómeno deve-se à atenção despertada pelos, internacionalmente reconhecidos, Encontros de Cinema Documental, que nas suas nove edições anuais, fiz parte da direcção da última edição, e numa nova fase de abertura do nosso país ao exterior, criaram um espaço de exibição, divulgação e competição para os documentários portugueses, bem como a possibilidade de confrontação dos realizadores nacionais com documentaristas estrangeiros através dos seus filmes ou através da sua presença nos Encontros da Malaposta. Também os diferentes canais televisivos, alguns sujeitos ao cumprimento de protocolos, outros ao cumprimento de contractos, têm-se implicado nesta causa em defesa de um espaço para o documentário português, mas muitas das vezes de forma bastante descuidada. É lógico que hoje, na era digital, começam a estar muito difusas as fronteiras técnicas de cada trabalho. Sem dúvida que os processos laboratoriais e tecnológicos têm revolucionado, influenciado e provocado novos métodos de produção e realização de documentários. Em Portugal, também, a agilidade que estes mesmos novos processos técnicos proporcionaram ao acabamento de muitos projectos documentais foi decisiva. A sucessiva, e bem sucedida, representação portuguesa de filmes e vídeos em festivais e encontros internacionais de documentário marcou o desencadeamento e respectivo nascimento do terceiro ciclo do documentário nacional. Temos nos últimos dois anos, alguns surpreendentes exemplos de exibição comercial de documentário em sala. Hoje sem dúvida que o Festival Doclisboa conquistou um lugar de excelência no panorama do documentário nacional e internacional. Também o Doc´s Kingdom procura discutir de forma profunda as tendências do cinema documental de todo o mundo em Serpa.































